Embora grande parte das pessoas com HIV consiga viver por muitas décadas após a infecção — graças à terapia antirretroviral —, o organismo delas costuma mostrar sinais de envelhecimento prematuro, conforme muitos médicos vêm observando ao longo dos anos, informa o site do jornal “O Globo”. Esta constatação é, agora, corroborada por um estudo publicado nesta quinta-feira (21), na revista “Molecular Cell”. Os pesquisadores utilizaram um biomarcador de alta precisão para medir o quanto a infecção pelo HIV envelhece as pessoas em nível biológico. E a resposta chama atenção: é uma média de 4,9 anos.

Os problemas médicos no tratamento de pessoas com HIV mudaram”, afirmou Howard Fox, professor no Departamento de Farmacologia e Neurociência Experimental do Centro Médico da Universidade de Nebraska, nos EUA, e um dos autores do estudo. “Não estamos mais tão preocupados com as infecções que podem surgir pelo fato de os pacientes estarem imunocomprometidos. Agora nos preocupamos com as doenças relacionadas ao envelhecimento precoce, como doenças cardiovasculares, disfunção cognitiva e problemas no fígado”.

Além do envelhecimento precoce causado pela infecção, a pesquisa também revelou que isso se correlaciona com um risco elevado de mortalidade de 19%. O estudo analisou as mudanças epigenéticas nas células de quem é infectado pelo vírus. Alterações deste tipo afetam o DNA, mas não modificam toda a sequência do DNA. A mudança epigenética específica usada como biomarcador nessa pesquisa foi a metilação, um processo pelo qual pequenos grupos químicos são anexados ao DNA. A metilação do DNA pode afetar o modo pelo qual os genes são traduzidos em proteínas.

Nos propusemos a olhar para os efeitos da infecção pelo HIV na metilação, e confesso que fiquei surpreso ao encontrarmos um efeito tão significativo sobre o envelhecimento”, disse Trey Ideker, professor de genética do Departamento de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego e também autor do estudo.

Outro aspecto que foi surpreendente foi que não houve diferença entre os padrões de metilação em aquelas pessoas que foram recentemente infectadas [menos de cinco anos] e aquelas com infecção crônica [mais de 12 anos]”, acrescentou Howard Fox.

Estilo de vida saudável reduz riscos

Os cientistas afirmam que é possível que drogas sejam criadas para atingir os tipos de mudanças epigenéticas observadas no estudo. Mas as implicações mais imediatas, de acordo com eles, são muito mais simples: as pessoas infectadas com o HIV devem estar cientes de que estão num grupo de maior risco de desenvolver doenças relacionadas à idade e trabalhar para diminuir esses riscos, fazendo escolhas mais saudáveis em relação a exercícios físicos, dieta e uso de álcool, tabaco e outras drogas.

Foram envolvidos 137 pacientes no estudo. Segundo os pesquisadores, os indivíduos que foram escolhidos não têm outras condições de saúde que poderiam distorcer os resultados. Como grupo de controle, 44 pessoas que testaram negativo para o HIV também foram incluídas na análise inicial. E um grupo independente de 48 indivíduos, tanto HIV positivos quanto negativos, foi utilizado para confirmar as descobertas.

O que temos visto em estudos anteriores é que à medida que envelhecemos a metilação no genoma inteiro muda”, diz Trey Ideker. “Algumas pessoas chamam isso de entropia ou de deriva genética. Apesar de não temos certeza do exato mecanismo pelo qual essas mudanças epigenéticas levam a sintomas de envelhecimento, esta é uma tendência que podemos medir no interior das células das pessoas.”

Fonte : O Globo